Maníaco do Jose Walter

Nos anos 80, o conjunto habitacional Prefeito José Walter foi tomado pelo medo de um ataque do maníaco que cortava a bunda das mulheres. Preso e reconhecido, Evandro confessou os crimes e acabou morto no presídio. Mas há quem diga que ele não era o 'verdadeiro' Corta-bundas. Ou pelo menos, não o único. O mito prossegue no imaginário do bairro

Da próxima vez que for perambular pelas ruas numeradas e estreitas do bairro Conjunto Prefeito José Walter, experimente espiar as janelas e as portas das casas: grades pretas, meio consumidas pelo tempo (ferrugem), antecedem a usual madeira envernizada. "Taqui: todo mundo tem grade nas portas, colocada na época", constata e aponta a moradora Raimunda Alves Braide, 74 anos, aposentada. Da varanda de sua casa - com as grades e portas abertas -, ela lembra os dias sombrios em que, além de instalar a grade, era necessário pendurar panelas nas portas e nas janelas. Tendo em vista que se o Corta-bunda tentasse invadir a casa, sua presença seria anunciada pelo tilintar do alumínio. De 1985 a 1987, o dia-a-dia no José Walter era assim, tomado pelo medo de que um maníaco - o Corta-bunda - invadisse a residência e cortasse os glúteos das mulheres presentes. Polícia e população ficaram em polvorosa, até Francisco Evandro Oliveira da Silva, 26 anos, confessar, em 6 de fevereiro de 1987, todos os crimes de lesão corporal e ser assassinado na prisão vinte dias depois. Mas como uma boa lenda urbana, a história não parou aí: até hoje, moradores acreditam que Evandro foi apenas "um dos Corta-bundas" ou que foi somente um "laranja", pago ou coagido a assumir os crimes.

De qualquer forma, a presença - real demais - do Corta-bunda marcou a história do conjunto habitacional construído em 1970 e localizado entre o Jangurussu e o Mondubim, nos limites de Fortaleza com Maracanaú. "Foi o maior sufoco da vida que passamos aqui no nosso bairro. Mãe e pai de família amanheciam o dia sentado aí na rua com cassetete na mão, cochilando. Ninguém trabalhava mais. Todas as noites tinha rodízio pra fazer o lanche das pessoas que iam ficar á noite acordadas, na ronda", lembra dona Raimunda. Sua filha, Socorro Braide, foi a última a ser cortada pelo maníaco. Socorro "não acreditava que o homem entrava nas casas pra cortar", por isso nem fechou a grade quando foi se deitar no chão, á tarde, e acabou cochilando. "Quando eu acordei, a minha bunda já tava ardendo, e aquele negócio escorrendo na perna. Eu pensava que era daquelas lagartas peludas que pegava na gente e queimava. Quando eu olhei que vi o sangue e a saia rasgada, eu gritei", lembra, hoje aos 40 anos. Quando souberam do que se tratava, os irmãos de Socorro saíram atrás do vulto, que pulou o muro. "Eu pulei atrás mais meu outro irmão. Ele tava aqui e quando a gente olhava não tava mais. Ele cegava a gente", conta João Braide, 48.

Dona Berenice Borges, 50, funcionária pública, foi quem reconheceu Evandro como o Corta-bunda. Na época, os jornais estampavam: ela era a única vítima que poderia reconhecer o "Maníaco do Zé Walter". "Até roubo diminuiu aqui porque os ladrões tinham medo de ser confundidos. Porque aconteceu de um dia o delegado mandar me buscar aqui em casa pra eu reconhecer uma pessoa que tava lá. Mas o rapaz já me conhecia e disse assim: 'ei, tão pensando que eu sou o corta-bunda? Eu não sou não!' (risos)". Uma semana antes do dia em que foi atacada - madrugada de um domingo para segunda -, dona Berenice afirma que ele apareceu em seu quarto. Desperta com o vulto, ela entrou em estado de choque quando percebeu quem era. "Eu conseguia vê-lo muito bem, mas ele não percebia que eu estava acordada. Eu pude observar bem: ele tava sem camisa, só de bermuda, pegou uma roupa minha e enrolou na cabeça. Fiquei naquela agonia e ele percebeu. Só fez se aproximar, olhou pra mim e saiu tranquilo. Não aconteceu nada". No dia do ataque, no entanto, quando dona Berenice abriu os olhos, o Corta-bunda já estava ao seu lado, de novo.

"Dessa vez eu soltei aquele grito terrível. Ele só fez me puxar e me prender entre as pernas dele e saiu cortando feito doido. Eu levei 25 pontos. Aí ele me largou e correu pro quarto da minha menina. Acho que ele só fez levantar a perninha dela e passar não sei se era um estilete. Os cortes foram superficiais, não foram tão profundos. Mas deixaram marcas, e não só fisicamente". A dor do corte, de acordo com dona Berenice e com o relato de outras vítimas, não é sentida de imediato. A filha dela, sete anos na época, respondeu á mãe que não estava cortada, apesar de o sangue escorrer. "A gente foi pro hospital e de repente a casa se encheu de gente, e o pessoal correndo atrás, pra ver se pegava". Durante um bom tempo, dona Berenice permaneceu em constante estado de pânico, com medo de sofrer outros ataques e, após a prisão de Evandro, de sofrer represálias.

Mais de um mês depois do ataque, dona Berenice estava na porta de sua casa, com uma vizinha, quando passou uma pessoa de bicicleta. "Se ele tivesse passado normal eu nem teria me tocado. Mas ele botou a bicicleta em cima da gente e ficou me encarando. Aí quando eu olhei pra ele, pronto. Eu senti aquele pânico novamente. Aí eu disse: 'é ele'". A vizinha chamou o marido, que chamou um policial, que chamou a viatura. Pouco tempo depois, veio um camburão da polícia que trazia dois homens vestidos de bermuda bege e blusa vermelha, descrições dadas pela funcionária pública. O segundo era o homem que dona Berenice reconhecera. Ela lembra que, na época, disseram que ele não ofereceu resistência á prisão e que admitiu os crimes, colocando-se á disposição para identificar todas as casas que havia invadido. As dezenas de vítimas (contam-se que foram mais de trinta, embora apenas três tenham prestado queixa que resultou em processo) foram reconhecê-lo no Oitavo Distrito Policial, no José Walter. "A gente dentro da delegacia, prediozinho pequeno que era, e aquela multidão do lado de fora querendo linchar. Foi um momento de pânico". No Instituto Penal Professor Olavo Oliveira, Evandro foi assassinado.

O povo
Natália Paiva - da Redação

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