Auto(des)ajuda econômica: 4 passos para NÃO sair de uma recessão

O mercado de livros de autoajuda – mesmo com a economia em recessão – parece nunca entrar em crise. Há sempre uma demanda constante por títulos como: “Os 7 hábitos das pessoas altamente eficazes”, “Como chegar ao primeiro milhão?”, “10 passos para se tornar seu mestre”1, enfim… Todos eles figurando entre os livros mais vendidos aqui no Brasil.

Neste pequeno texto, enveredarei pela “autoajuda econômica” (ou seria “autodesajuda”? Ou talvez uma desajuda global). Certamente não escreverei nenhum best seller. Nem pretendo, uma vez que não me utilizarei dos “doces clichês” que os leitores sempre querem encontrar, que são regados de um idealismo e romantismo excessivos, mas que fogem de uma realidade concreta e verificável. Ou você conhece algum amigo altamente eficaz, milionário ou que se tornou mestre, após a leitura especifica destes livros?

Pois bem, pretendo apresentar um guia prático: 4 passos para NÃO sair de uma recessão. Para tanto, não se precisou ir muito longe às fontes, ou revisitar os prés e pós-socráticos, ou economistas clássicos, ou citar “frases de efeito” escritas pelos mais renomados literários internacionais, ou refletir provérbios chineses, árabes ou cearenses. Bastou-se analisar as últimas políticas econômicas implementadas pelo atual governo federal, com sua equipe econômica, que tem exatamente jogado nossa economia numa recessão mais profunda do que ela já estava. Segue então o guia.

Primeiro PassoAprove uma emenda de corte de gastos públicos, alegando que o Estado gasta demais com os pobres. Junte meia dúzia de economistas em uma emissora de televisão hegemônica e valide tal ideia: a de que a superação da crise requer que o Estado atinja metas orçamentárias, ou seja, não gaste nem invista em setores estratégicos da economia.

O referido passo se sustenta na verificação empírica de que o nível da atividade econômica – o PIB – é impulsionado pelos consumos e investimentos globais dos agentes que atuam numa determinada economia, o chamado Princípio da Demanda Efetiva2. Dentre os componentes desta demanda temos: o consumo privado ou consumo das famílias (Cp), o consumo do governo (Cg), o investimento privado ou investimento das empresas (Ip), o investimento do governo (Ig) e consumo relativo ao setor externo, equalizado nas relações entre exportações, deduzidas as importações (X–M). Portanto, a Demanda Agregada (DA), assim chamada na teoria econômica, se sintetiza na expressão:

DA = Cp + Cg + Ip + Ig + (X – M).

Entendendo a Demanda Agregada como essa variável determinante das atividades econômicas, a partir de sua análise atualizada é possível facilmente verificar que: a) as famílias estão endividadas e boa parte desempregadas (logo, Cp está comprometido); b) as empresas também estão endividas (Ip também comprometido), bem como estas não estão confiantes em investir, pois somente o farão se tiverem a certeza de consumos (mas os consumidores estão endividados, vide item a); e c) ainda experimentamos uma crise internacional, comprometendo o volume de nossas exportações (logo X – M, com X > M, o chamado Superávit na Balança Comercial, também está comprometido).

Dessa forma, olhando para a expressão da Demanda Agregada (DA = Cp + Cg + Ip + Ig + [X – M]), só nos restam então as variáveis: Consumo do Governo (Cg) e Investimento do Governo (Ig), que embora o país esteja com déficit orçamentário, pode direcionar recursos para áreas estratégicas. Entretanto, estas estão descartadas pela imposição da Emenda Constitucional do Teto dos Gastos.

Com efeito, é possível perceber que para uma possível superação de crise, torna-se essencial a atuação do Estado, gastando e investindo em determinados setores que, possivelmente dinamizariam o consumo e potencializariam os níveis de produção. Como resultado esperado em curto e médio prazos, as receitas (via tarifação) tenderiam a aumentar e o Estado poderia reequilibrar seus orçamentos, sem austeridade (ou seja, corte de gastos)!

Segundo Passo – Aprove uma reforma trabalhista, prometendo que relações de trabalho mais flexibilizadas retomarão as ofertas de emprego. Junte os mesmos economistas, na mesma emissora de TV e faça a população acreditar que os empresários contratarão mais, devido o custo da mão de obra estar mais barata.

Mas acreditem! Os empresários somente contratarão para aumentar suas produções se tiverem a certeza de que suas ofertas serão vendidas. Entretanto, em cenário de crise, o receio não os fazem investir (embora tenhamos diariamente a Miriam Leitão afirmando que o mercado está recuperando sua confiança). Logo, evidencia-se que a reforma trabalhista nada mais é do que recuperação de lucros no curto prazo (via barateamento do custo de mão de obra), considerando o atual contexto de recessão que estamos experimentando, sem garantia real de expansão de empregos.

Terceiro Passo – Desmonte a previdência social, alegando que sustentamos uma população de idosos e ociosos. Novamente, os mesmos economistas, no mesmo veículo de comunicação, que desconsideram em suas metodologias de cálculo da previdência a não contabilização das receitas não arrecadadas, sonegadas e desoneradas e anistiadas para os empresários, subestimando assim a receita real desta. Ademais, nessa metodologia são contabilizados nos gastos, determinadas despesas não previdenciárias, ou seja, gastos realizados em outros setores via Desvinculação das Receitas da União3 (a famosa DRU), embora o recurso seja arrecadado exclusivamente para fins de previdência e assistência social.

Diante do exposto, cabe-nos salientar que antes de ser entendida como um custo, a previdência é um robusto programa de assistência social que dinamiza a economia, contribuindo para os níveis de consumo desta (ou seja, da Demanda Agregada), bem como é um instrumento de renda que garante a sobrevivência da economia de inúmeros municípios brasileiros, que verificam nos repasses previdenciários a sua principal fonte de renda e consumo.

Último (e talvez, mais importante) passoEleve os braços aos céus e peça orações pela economia, conforme sugere nosso Ministro da Fazenda, Henrique Meirelles. Considerando que a crença e as orações dele sejam voltadas ao deus-Mercado, nossa economia ainda passará um bom tempo de jejum, de penitência, de quaresma intensa… como no eterno apelo do nordestino pela chuva poetizada na Súplica Cearense4. Entretanto, a diferença é que neste Deus, é possível e o nordestino crê!

 

“Oh! Deus, perdoe este pobre coitado

Que de joelhos rezou um bocado

Pedindo pra chuva cair sem parar”

(Súplica Cearense, Gordurinha)

 

1Os 7 Hábitos Das Pessoas Altamente Eficazes” de Covey, Stephen R.; “O Seu Primeiro Milhão – Como Fazer o Seu Dinheiro Crescer” de Carrilho, Pedro Queiroga e “10 Passos para Você Se Tornar o seu Mestre” de Telles, Izabel.

2 Análise desenvolvida principalmente por um dos mais influentes economistas do século XX, o inglês Jonh Maynard Keynes, na obra Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda, publicada em 1936.

3 A Desvinculação de Receitas da União (DRU) é um mecanismo que permite ao governo federal usar livremente 30% de todos os tributos federais vinculados por lei a fundos ou despesas. A principal fonte de recursos da DRU são as contribuições sociais, que respondem a cerca de 90% do montante desvinculado. Conforme “Senado Notícias”, disponível em: http://www12.senado.leg.br/noticias/entenda-o-assunto/dru.

4 Musica do cantor e compositor baiano Waldeck Artur de Macedo, mais conhecido como Gordurinha, eternizada na voz de Luiz Gonzaga, Elba Ramalho, Jackson do Pandeiro, Fagner e outros nordestinos arretados.

 

Edu Oliveira

Professor de Economia Política da Universidade Federal do Piauí - UFPI, filho e amante do bairro José Walter.